Experiências de “camuflagem” de gênero: pessoas trans e o uso do nome social em uma universidade pública no Centro-Oeste brasileiro
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Palavras-chave

nome social
universidade
reconhecimento

Como Citar

LINO, Adriana Cristiane Lopes; DUQUE, Tiago. Experiências de “camuflagem” de gênero: pessoas trans e o uso do nome social em uma universidade pública no Centro-Oeste brasileiro. Série-Estudos, Campo Grande, v. 27, n. 59, p. 261–283, 2022. DOI: 10.20435/serie-estudos.v27i59.1578. Disponível em: https://serie-estudos.ucdb.br/serie-estudos/article/view/1578. Acesso em: 5 mar. 2026.

Resumo

Este artigo analisa o uso do nome social por pessoas trans (travestis, transexuais e não binários/as) em uma universidade pública no Centro-Oeste brasileiro. Por meio de entrevistas semiestruturadas e do referencial teórico pós-crítico em Educação, são discutidas as experiências de quatro universitárias em busca do reconhecimento, pelo nome, do gênero com que se identificam. Aponta-se o quanto o nome social torna-se importante, mas não necessariamente resolve todas as dificuldades de acesso e permanência no Ensino Superior. A análise qualitativa dos dados indica as fragilidades legais que instituem o uso do nome social e, ao mesmo tempo, os limites culturais normativos dos processos de produção das identidades de gênero em uma perspectiva pós-identitária, isto é, para além dos sujeitos trans em si. Conclui-se que o uso do nome social compõe um regime de visibilidade de gênero que favorece uma “camuflagem”, permitindo uma certa “vida social”, estrategicamente agenciada em diferentes contextos, especialmente na universidade.

https://doi.org/10.20435/serie-estudos.v27i59.1578
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