Povoando subjetividades na “nova” política para a formação de professores no Brasil: uma discussão acerca das competências

Palavras-chave: política curricular, competências, formação de professores

Resumo

Este artigo foca na centralidade da noção de competências nos documentos normativos para a formação de professores. A aprovação da Resolução CNE/CP n. 2/2019 em substituição à Resolução CNE/CP n. 2/2015 torna relevante a investigação de como vêm sendo interpeladas as subjetividades em torno da noção de competência, normalizando o caráter cada vez mais prescrito da regulação. Objetivamos compreender de que maneira a reiteração das competências na formação de professores processa o povoamento das subjetividades. Referenciamo-nos, especialmente, em Harvey, Santos, Duarte, Ramos, Ball, Brown e Taubman. Nós nos ativemos às evocações ao neopragmatismo e à epistemologia da prática, ao longo do tempo, como sentidos que hegemonizam as competências na formação inicial de professores, explicitando como na política atual as competências produzem dois movimentos fundantes à produção de subjetividades pela razão neoliberal. Elas operam a dessacralização da educação como um valor em geral, ao mesmo tempo em que processam a sedução psíquica e a aceitação das políticas e práticas instrumentais.

Biografia do Autor

Merilin Baldan, Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT)

Doutora em Educação pela Universidade Federal de São Carlos (Ufscar). Professora adjunta do Departamento de Educação e do Programa de Pós-Graduação em Educação na Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), Campus Universitário de Rondonópolis.

Érika Virgílio Rodrigues da Cunha, Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT)

Doutora em Educação pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj). Professora adjunta do Departamento de Educação e do Programa de Pós-Graduação em Educação na Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), Campus Universitário de Rondonópolis.

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Publicado
2020-09-11
Seção
Dossiê: As (novas) políticas curriculares para formação docente: paradoxos e pro